Brasil
Combate à violência escolar é desafio a ser enfrentado por todos, aponta debate
Publicado em
13 de agosto de 2025por
Da Redação
Em debate nesta quarta-feira (13) na Comissão de Segurança Pública (CSP) sobre o projeto que institui diretrizes de segurança contra a violência em escolas, o relator da proposta e autor do requerimento para a audiência, senador Efraim Filho (União-PB), disse que a intenção é aumentar recursos orçamentários para infraestrutura e capacitação dos profissionais nas escolas. E destacou que as áreas mais vulneráveis merecem atenção especial sobre a prevenção de ataques.
O PL 5.671/2023 estabelece ações obrigatórias para unidades de ensino públicas e privadas e altera a lei que trata do Fundo Nacional de Segurança Pública para garantir financiamento específico às medidas previstas.
O senador Jorge Seif (PL-SC) destacou que, entre 2002 e 2022, o Brasil registrou 16 ataques fatais em escolas. Metade dos casos ocorreu nos últimos dois anos.
— Ou seja, [os ataques] estão se intensificando, o que evidencia o crescimento alarmante. Em Santa Catarina, [os episódios de] Saudades e Blumenau foram trágicos. A escola tem que ser um lugar santo. Quando ocorrem esses eventos, ficamos perplexos e em choque, São episódios violentos e covardes. Não se trata de fato isolado, mas um fenômeno que exige prevenção efetiva e integração entre segurança pública, educação, protocolos claros e políticas voltadas à saúde mental de crianças e adolescentes — afirmou.
Para o senador Sérgio Moro (União-PR) é preciso aumentar o rigor para assassinatos em ambiente escolar, além da criminalização dos atos preparatórios desses episódios para permitir que as autoridades possam intervir antes dessas ocorrências.
Gestão de crise
A diretora de Comunicação da Asis Capítulo São Paulo, Ana Flávia Bello, afirmou que a gestão de crises em ambientes escolares envolve uma visão estratégica, integrada e com ações abrangentes.
A organização que Ana Flávia representa lidera atualmente a criação do primeiro padrão de segurança escolar, aprovado pelo American National Standard Institute, dos Estados Unidos. O protocolo tem como objetivo oferecer às instituições educacionais um referencial unificado e consistente para avaliar e aprimorar as medidas de segurança.
— Um provérbio africano diz que é preciso uma aldeia inteira para educar uma criança. Essa fala é um chamado à responsabilidade coletiva em torno do tema. A escola sempre foi um ambiente seguro para os nossos filhos, e assim deve continuar. Mas hoje vivemos claramente uma crise de segurança nos ambientes escolares. E, em situações de crise, soluções de rotina não são suficientes — afirmou Ana Flávia.
No combate aos atos de violência extrema em ambientes educacionais, disse, os primeiros passos são elevar a prioridade do tema dentro das escolas, ampliar a consciência dos riscos e agir de forma preventiva e estruturada para mitigar esses riscos, afirmou.
— No entanto, como risco zero não existe, faz-se necessário também a preparação de uma resposta rápida e eficaz caso um evento se materialize. A crise não termina com a contenção do ato em si ou da violência, há muitos impactos que exigem uma intervenção pós-evento – afirmou.
Ana Flávia citou três pilares que sustentam boas práticas para gestão de crises relacionadas a atentados por agressores ativos, tema que impulsionou a criação do PL 5.671/2023:
- Reconhecer — identificar sinais de risco antecipadamente; o massacre em escola pode levar até dois anos de planejamento, entre a primeira ideação violenta e o ato em si; é preciso estar atento ao que acontece dentro e fora da escola, fazer monitoramento e nunca ignorar sinais; pais e educadores precisam conhecer características e comportamentos que podem ser indícios iniciais de futuros atos violentos, seja contra outras pessoas ou do jovem ou criança contra si mesmo.
- Intervir com acolhimento — envolve escuta ativa, criação de canais internos de comunicação com ampla divulgação. Alunos, pais e professores devem ter caminhos claros e seguros para relatar preocupações, suspeitas e evidências.
- Responder — os ataques em escolas costumam começar e terminar com menos de cinco minutos, o que comprova que a resposta inicial é fundamental; cada segundo conta; a resposta dentro da escola é o que vai salvar mais vida dentro dos cinco minutos, antes das forças policiais chegarem; a resposta rápida vai depender de protocolos adequados e pré-definidos e equipes bem treinadas a partir de exercícios simulados realizados regularmente, envolvendo adultos, crianças e adolescentes da escola.
Ana Flávia recomendou ainda que o Brasil adote o uso obrigatório de aplicativos de comunicação de notificações em massa em casos de emergência, como ataques em escolas.
Ações preventivas
Agente da Polícia Federal e integrante do Grupo de Pronta Intervenção (GPI), Igor Cavalcante destacou que as iniciativas de proteção devem envolver a comunidade escolar e a sociedade, pois a polícia, mesmo dotada de vários mecanismos, nem sempre consegue chegar a tempo de evitar o episódio de violência.
— Há planejamento nesse tipo de evento, ele raramente e um ato súbito inesperado, normalmente ocorre uma preparação previa para ele, fugindo do habitual verificado em eventos comuns de violência. Regras claras dentro da instituição também são importantes. É importante que as escolas tenham planos de ação e treinamento, tanto das forças de segurança como da comunidade escolar — afirmou.
Fundadora e presidente da Associação Brasileira de Resposta à Violência Escolar, e filha de uma professora que foi vítima fatal de ataque violento a uma escola da Zona Oeste de São Paulo, Fernanda Barros destacou que no espaço da escola todos deveriam se sentir seguros, com professores respeitados e amparados.
— A violência que tirou a vida de minha mãe, assim como de outras em ambientes escolares, não foi um acaso nem fato isolado, mas resultado direto da ausência de estrutura adequada, da falta de preparo e inexistência de mecanismos claros e eficazes para que a gente pudesse identificar, prevenir e responder as ameaças. No caso dela, muitas dessas ameaças já vinham sendo sinalizadas. O agressor dela tramou isso durante dois anos. No dia em que ele cometeu o assassinato, ele expôs na rede social que faria isso — afirmou.
Preparo
Gerente sênior de Segurança da Avenues The World School, Rodrigo Zuh destacou que segurança escolar não envolve apenas infraestrutura e tecnologia, mas sobretudo o preparo das pessoas. O especialista criou o Protocolo Vida, o primeiro e único protocolo brasileiro de resposta a atos de violência extrema de agressores ativos.
— O PL 5.671 é um passo importante porque reconhece essa necessidade de medidas estruturadas para prevenir e responder à violência extrema em ambiente escolar. E estabelece pontos fundamentais como uso de dispositivos de acionamento rápido, câmaras de vigilância e planos de prevenção. No entanto, por si sós, equipamentos não salvam vidas. O que salvam vidas são pessoas preparadas para agir — afirmou.
Resposta rápida
Capitão da Polícia Militar do Estado de São Paulo, Guilherme Boldrini destacou que as ocorrências de violência extrema nunca terminam na simples atuação do agressor, mas podem evoluir para outras casos, sem falar nos aspectos psicológicos gerados por esses episódios. Ele acentuou ainda que o massacre de Columbine High School, em abril de 1999, nos Estados Unidos, gerou grandes mudanças nos protocolos de atuação pelos órgãos policiais ao redor do mundo.
— O trabalho das forças policiais públicas e privadas tem de ser de evolução constante. Essas pessoas não têm medo da morte, elas têm medo de falhar, por isso elas se preparam para isso aí. Nossa legislação infelizmente não é favorável. Faltam protocolos específicos para forças policiais atuarem em relação a esse tipo de demanda. A resposta rápida da equipe policial é fundamental — afirmou.
Ações estruturantes
Representante do Corpo de Bombeiros Militar de Santa Catarina, Roberto Lúcio Corrêa Bueno apontou a importância da elaboração de planos de contingência e ações estruturantes no combate à violência extrema nas escolas. Ele ressaltou ainda que Blumenau já executa plano de evacuação de todas as unidades escolares do município há mais de dez anos.
— E a gente tem colhido bons frutos. Ano passado teve um princípio de incêndio numa creche. Quando a gente chegou para fazer o combate ao incêndio, todos os ocupantes, professores e crianças já estavam no ponto de encontro, todos em segurança, e o incêndio já tinha sido combatido também com as técnicas que eles aprendem conosco e com os treinamentos —
Em relação ao PL 5.671/2023, Bueno propôs alterações nas diretrizes técnicas dos equipamentos dos seguranças, conteúdos mínimos para capacitação de profissionais e planos específicos de segurança para as escolas, de acordo com a realidade de cada unidade de ensino. Também cobrou enfrentamento às ameaças digitais, “fonte primeira nos planejamentos dos ataques”.
Agência Senado (Reprodução autorizada mediante citação da Agência Senado)
Fonte: Agência Senado
Brasil
Participantes de sessão cobram avaliação biopsicossocial de PCDs
Published
3 dias agoon
21 de setembro de 2026By
Da Redação
Em sessão especial do Senado para celebrar o Dia Nacional de Luta da Pessoa com Deficiência, nesta segunda-feira (21), especialistas cobraram a implementação da avaliação biopsicossocial unificada, prevista no Estatuto da Pessoa com Deficiência, para facilitar o acesso a políticas de inclusão. Também defenderam a matrícula de crianças com deficiência em escolas comuns.
O Censo 2022 do IBGE identificou 14,4 milhões de pessoas com deficiência no Brasil, o equivalente a 7,3% da população com 2 anos ou mais.
A senadora Damares Alves (Republicanos-DF), que presidiu a sessão, afirmou que a Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência da Organização das Nações Unidas (ONU) levou o poder público a adaptar a sociedade às necessidades desse público. Segundo ela, antes predominava a perspectiva médica, “como se a pessoa tivesse um defeito a ser consertado”. A Convenção foi aprovada pelo Congresso Nacional em 2008 e promulgada no ano seguinte.
— É a rua que tem que ter rampa, é o transporte que tem que ser acessível, é a escola regular que tem que acolher com atendimento especializado. É o governo que tem que dar as mãos. Não é caridade, é direito.
Autor do requerimento da sessão (RQS 53/2026), o senador Paulo Paim (PT-RS) afirmou que a inclusão social das pessoas com deficiência depende da valorização da pluralidade.
— Quando derrubamos as barreiras do preconceito e do espaço, edificamos uma sociedade onde cada corpo tem o direito sagrado ao protagonismo e ao pertencimento — disse, em participação remota.
Avaliação biopsicossocial
Damares e Paim afirmaram que a avaliação biopsicossocial prevista no Estatuto da Pessoa com Deficiência ainda não foi regulamentada na forma unificada defendida pelos participantes da sessão. O Estatuto da PCD, fruto de um projeto apresentado por Paim, estabelece que, quando necessária, a avaliação deve ser biopsicossocial, realizada por equipe multiprofissional e interdisciplinar, considerando impedimentos nas funções e estruturas do corpo, fatores socioambientais, psicológicos e pessoais, limitações no desempenho de atividades e restrições de participação.
A representante da Rede Brasileira de Inclusão da Pessoa com Deficiência, Tereza Cristina Rodrigues Villela, afirmou que o documento deverá auxiliar o cadastro-inclusão, destinado a reunir informações sobre pessoas com deficiência que necessitam de assistência governamental. Segundo relatório de 2023 do governo federal citado na sessão, um formulário unificado também poderá facilitar o acesso aos benefícios sociais.
Entre os direitos destinados às pessoas com deficiência estão reserva de vagas em concursos públicos e em empresas com mais de 100 empregados, o Benefício de Prestação Continuada (BPC) para pessoas de baixa renda que atendam aos requisitos legais e benefícios tributários previstos em lei.
Escolas comuns
A presidente da Federação das Associações de Síndrome de Down, Cleunice Bohn de Lima, defendeu que crianças com deficiência sejam educadas em escolas comuns, e não exclusivamente em escolas especiais. Segundo ela, a convivência com pessoas sem deficiência contribui para a inclusão da criança na sociedade e no mercado de trabalho.
— Quando uma escola diz “esse aluno com deficiência não consegue participar da escola comum”, precisamos perguntar: o que a escola está fazendo para remover as barreiras que impedem essa participação? É na escola comum que as PCDs têm oportunidade de conviver com a diversidade e desenvolver processos psicológicos.
Cleunice pediu a aprovação do PL 401/2019, que estabelece que a pessoa com deficiência seja considerada idosa a partir dos 50 anos, com possibilidade de redução dessa idade mediante avaliação biopsicossocial multidisciplinar. A proposta está pronta para deliberação do Plenário do Senado. Segundo dados analisados pelo Instituto Rodrigo Mendes a partir de informações do Inep, 46,8% das crianças com deficiência estudavam em classes comuns em 2007. Em 2023, o percentual chegou a 92,6%.
Participação social
Celebrado anualmente em 21 de setembro, o Dia Nacional de Luta da Pessoa com Deficiência foi instituído pela Lei 11.133, de 2005. Na sessão, o representante do Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania, Alex Reinecke, afirmou que a mobilização das pessoas com deficiência contribuiu, após a redemocratização, para a participação desse grupo na elaboração de políticas públicas.
— Introduziram, a partir de suas experiências e conhecimentos, novas maneiras de compreender a deficiência e a autonomia. As PCDs não são apenas destinatárias de ações estatais, são cidadãs, lideranças, trabalhadoras e produtoras de conhecimento.
Reinecke citou dados do IBGE para apontar diferenças entre pessoas com e sem deficiência no mercado de trabalho e na educação. Segundo os dados mencionados na sessão, em 2022, 29% das pessoas com deficiência em idade de trabalhar estavam empregadas, ante 55,8% das pessoas sem deficiência. Entre as pessoas de 15 a 29 anos, a taxa de analfabetismo era de 12,2% entre as pessoas com deficiência e de 1% entre as pessoas sem deficiência.
A sessão também contou com a participação da ex-secretária de Direitos das Pessoas com Deficiência Izabel Maior, da professora Érica Curado, da representante do Fórum Nacional das Pessoas com Deficiência Regina Atala, da coordenadora-geral de Prevenção à Violência contra as Mulheres do Ministério das Mulheres, Anita Cunha Monteiro, e da ex-deputada Rosinha da Adefal. Izabel Maior mencionou os senadores Paulo Paim, Mara Gabrilli (PSD-SP) e Flávio Arns (PSB-PR) ao falar sobre a atuação parlamentar relacionada aos direitos das pessoas com deficiência.
Agência Senado (Reprodução autorizada mediante citação da Agência Senado)
Fonte: Agência Senado
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