Brasil
Debate aponta carência de atenção integral para pessoas com doenças raras
Publicado em
9 de março de 2026por
Da Redação
Pessoas com doenças raras carecem de políticas públicas de atenção integral: acesso ao diagnóstico precoce, tratamento adequado, organização da linha de cuidados no Sistema Único de Saúde (SUS) e garantia de apoio às famílias. Essa é uma das conclusões da audiência pública promovida pela Comissão de Direitos Humanos do Senado (CDH) nesta segunda-feira (9).
Também foi apontada no debate a importância de se combater o bullying contra as pessoas com doenças raras. A audiência aconteceu por solicitação da presidente da CDH, senadora Damares Alves (Republicanos-DF).
As doenças raras são definidas pelo Ministério da Saúde como aquelas que afetam até 65 pessoas a cada 100 mil habitantes (Portaria 199, de 30 de janeiro de 2014, do Ministério da Saúde). Segundo Damares, apesar da baixa prevalência, o conjunto dessas enfermidades representa um desafio significativo para os sistemas de saúde.
De acordo com esse ministério, estima-se que cerca de 13 milhões de cidadãos convivam com alguma doença rara no Brasil. Parte dessas doenças tem origem genética e se manifesta ainda na infância, demandando diagnóstico precoce, acompanhamento contínuo e tratamento especializado.
— Precisamos atuar para acabar com o diagnóstico tardio e com a dificuldade de acesso aos serviços especializados, que ainda representam entraves relevantes para a efetividade da atenção integral às pessoas com doenças raras no Brasil — defendeu a senadora.
Atraso nos atendimentos
A presidente da Associação Maria Vitória de Doenças Raras (Amavi), Lauda Santos, ressaltou que “o tempo do Estado não acompanha o tempo da doença”. Segundo a convidada, os atrasos nos atendimentos e nos estudos para a criação de novas medicações custam vidas. Ela disse que essas dificuldades têm sido recorrentes e são enfrentadas por todos os centros de referência do país.
— O Brasil é o único país que cobra quatro impostos para a importação de medicamentos de uso em pesquisas clínicas. Quando o país deixa de fazer uma pesquisa, a gente perde fases importantes [para o desenvolvimento das medicações] e tudo isso tem ocorrido mesmo após o cumprimento das exigências técnicas da agência reguladora — salientou Lauda.
Diretora de comunicação da Casa de Saúde Nossa Senhora dos Raros, Rosely Maria Fanti Garcia Cizotti declarou que pessoas com doenças raras sofrem de todas as formas possíveis. Ela apontou a falta de apoio institucional, inclusive de caráter psicológico, para pacientes e suas famílias.
De acordo com Rosely, o sistema reprime e discrimina pessoas com doenças raras, já que muitos ainda consideram dispendiosa a assistência a essa parcela da população.
— Os gestores e os parlamentares, que deveriam estar ao nosso serviço, batem as portas nas nossas caras porque nos consideram caros. A gente precisa olhar para a pessoa com doença rara por inteiro. Isso geraria uma economia enorme e mudaria a vida de milhares de brasileiros.
Diagnóstico tardio
Fundadora do Instituto Anaju, Laira dos Santos Inácio observou que 30% das crianças com doenças raras morrem antes de completar cinco anos de idade. O maior desafio, segundo a debatedora, é evitar o diagnóstico tardio.
— Uma família pode demorar anos até descobrir qual doença a criança realmente tem. São anos de consultas, exames, anos de incertezas. E quando falamos de doenças graves, tempo é vida. Cada mês sem o diagnóstico pode significar o avanço do mal, e cada atraso no tratamento pode representar perda de chance [de sobrevivência].
Teste do pezinho
Daniella Neves defendeu o teste do pezinho como um instrumento fundamental para o diagnóstico precoce de doenças graves e raras tratáveis. Ela é gerente de saúde do Instituto Jô Clemente – Laboratório de Triagem Neonatal. Feito por meio da coleta de algumas gotas de sangue do calcanhar do bebê após 48 horas de nascimento, o tempo ideal para realizar esse exame é entre o terceiro e o quinto dia de vida da criança.
Segundo Daniella, a Lei 14.154, de 2021, que buscou aperfeiçoar o Programa Nacional de Triagem Neonatal, previa a implementação das ações de forma escalonada pelo Ministério da Saúde dentro de cinco anos. Ela frisou, no entanto, que isso não aconteceu, já que não houve avanço a partir da etapa 2 da norma.
— A triagem neonatal biológica, que a gente chama de teste do pezinho, não é apenas um exame. É um grande programa que garante que toda a linha do cuidado seja executada no tempo adequado de prevenção das doenças. É uma verdadeira corrida contra o tempo, que contribui para a redução de deficiências, sequelas e óbitos, favorecendo a melhoria da qualidade de vida.
Bullying
A presidente da CDH repudiou o bullying contra pessoas que têm doenças raras — esses atos de violência são caracterizados pela prática repetitiva de atos violentos (físicos ou psicológicos) com o objetivo de intimidar e humilhar a vítima.
Damares citou o episódio no qual um adolescente diagnosticado com Prader-Willi (uma síndrome que resulta em dificuldades de aprendizado e facilidade para ganho de peso) foi forçado por um grupo de colegas a comer pelo menos sete pedaços de bolo, além de ser filmado enquanto usava o banheiro em uma escola pública de Fortaleza (CE). O caso aconteceu no fim de fevereiro e gerou forte repercussão.
— Foi um dos mais terríveis atos de bullying que já vi. Uma falta de sensibilidade da escola por não ter observado [o caso], dos professores, que não orientaram [os alunos], e de todos em volta. Os colegas foram extremamente cruéis com o menino, e as imagens não merecem ser compartilhadas. Estou entrando, inclusive, com um pedido à Meta para a exclusão dessa publicação das redes sociais — informou ela.
Tema em evidência na CDH
A senadora lembrou que a CDH tem debatido doenças raras de modo recorrente. Ela enfatizou que essa comissão é o lugar adequado para a discussão do assunto e que o tema continuará em evidência no colegiado.
— Debater esse assunto é sempre um momento de desafio, mas também de muita alegria para mim. Se possível fosse, eu promoveria essa discussão todos os dias porque, na minha visão, tal assunto precisa estar na pauta constantemente.
Também participaram da audiência pública desta segunda-feira a médica especialista em doenças raras Marina Alves Noronha; a diretora clínica do Hospital da Criança de Brasília José Alencar, Elisa de Carvalho; e Luiza Habib, que tem uma doença rara ainda sem diagnóstico (ela apresenta em suas redes sociais dicas e sugestões sobre como viver com mais autonomia e independência).
Agência Senado (Reprodução autorizada mediante citação da Agência Senado)
Fonte: Agência Senado
Brasil
Participantes de sessão cobram avaliação biopsicossocial de PCDs
Published
3 dias agoon
21 de setembro de 2026By
Da Redação
Em sessão especial do Senado para celebrar o Dia Nacional de Luta da Pessoa com Deficiência, nesta segunda-feira (21), especialistas cobraram a implementação da avaliação biopsicossocial unificada, prevista no Estatuto da Pessoa com Deficiência, para facilitar o acesso a políticas de inclusão. Também defenderam a matrícula de crianças com deficiência em escolas comuns.
O Censo 2022 do IBGE identificou 14,4 milhões de pessoas com deficiência no Brasil, o equivalente a 7,3% da população com 2 anos ou mais.
A senadora Damares Alves (Republicanos-DF), que presidiu a sessão, afirmou que a Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência da Organização das Nações Unidas (ONU) levou o poder público a adaptar a sociedade às necessidades desse público. Segundo ela, antes predominava a perspectiva médica, “como se a pessoa tivesse um defeito a ser consertado”. A Convenção foi aprovada pelo Congresso Nacional em 2008 e promulgada no ano seguinte.
— É a rua que tem que ter rampa, é o transporte que tem que ser acessível, é a escola regular que tem que acolher com atendimento especializado. É o governo que tem que dar as mãos. Não é caridade, é direito.
Autor do requerimento da sessão (RQS 53/2026), o senador Paulo Paim (PT-RS) afirmou que a inclusão social das pessoas com deficiência depende da valorização da pluralidade.
— Quando derrubamos as barreiras do preconceito e do espaço, edificamos uma sociedade onde cada corpo tem o direito sagrado ao protagonismo e ao pertencimento — disse, em participação remota.
Avaliação biopsicossocial
Damares e Paim afirmaram que a avaliação biopsicossocial prevista no Estatuto da Pessoa com Deficiência ainda não foi regulamentada na forma unificada defendida pelos participantes da sessão. O Estatuto da PCD, fruto de um projeto apresentado por Paim, estabelece que, quando necessária, a avaliação deve ser biopsicossocial, realizada por equipe multiprofissional e interdisciplinar, considerando impedimentos nas funções e estruturas do corpo, fatores socioambientais, psicológicos e pessoais, limitações no desempenho de atividades e restrições de participação.
A representante da Rede Brasileira de Inclusão da Pessoa com Deficiência, Tereza Cristina Rodrigues Villela, afirmou que o documento deverá auxiliar o cadastro-inclusão, destinado a reunir informações sobre pessoas com deficiência que necessitam de assistência governamental. Segundo relatório de 2023 do governo federal citado na sessão, um formulário unificado também poderá facilitar o acesso aos benefícios sociais.
Entre os direitos destinados às pessoas com deficiência estão reserva de vagas em concursos públicos e em empresas com mais de 100 empregados, o Benefício de Prestação Continuada (BPC) para pessoas de baixa renda que atendam aos requisitos legais e benefícios tributários previstos em lei.
Escolas comuns
A presidente da Federação das Associações de Síndrome de Down, Cleunice Bohn de Lima, defendeu que crianças com deficiência sejam educadas em escolas comuns, e não exclusivamente em escolas especiais. Segundo ela, a convivência com pessoas sem deficiência contribui para a inclusão da criança na sociedade e no mercado de trabalho.
— Quando uma escola diz “esse aluno com deficiência não consegue participar da escola comum”, precisamos perguntar: o que a escola está fazendo para remover as barreiras que impedem essa participação? É na escola comum que as PCDs têm oportunidade de conviver com a diversidade e desenvolver processos psicológicos.
Cleunice pediu a aprovação do PL 401/2019, que estabelece que a pessoa com deficiência seja considerada idosa a partir dos 50 anos, com possibilidade de redução dessa idade mediante avaliação biopsicossocial multidisciplinar. A proposta está pronta para deliberação do Plenário do Senado. Segundo dados analisados pelo Instituto Rodrigo Mendes a partir de informações do Inep, 46,8% das crianças com deficiência estudavam em classes comuns em 2007. Em 2023, o percentual chegou a 92,6%.
Participação social
Celebrado anualmente em 21 de setembro, o Dia Nacional de Luta da Pessoa com Deficiência foi instituído pela Lei 11.133, de 2005. Na sessão, o representante do Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania, Alex Reinecke, afirmou que a mobilização das pessoas com deficiência contribuiu, após a redemocratização, para a participação desse grupo na elaboração de políticas públicas.
— Introduziram, a partir de suas experiências e conhecimentos, novas maneiras de compreender a deficiência e a autonomia. As PCDs não são apenas destinatárias de ações estatais, são cidadãs, lideranças, trabalhadoras e produtoras de conhecimento.
Reinecke citou dados do IBGE para apontar diferenças entre pessoas com e sem deficiência no mercado de trabalho e na educação. Segundo os dados mencionados na sessão, em 2022, 29% das pessoas com deficiência em idade de trabalhar estavam empregadas, ante 55,8% das pessoas sem deficiência. Entre as pessoas de 15 a 29 anos, a taxa de analfabetismo era de 12,2% entre as pessoas com deficiência e de 1% entre as pessoas sem deficiência.
A sessão também contou com a participação da ex-secretária de Direitos das Pessoas com Deficiência Izabel Maior, da professora Érica Curado, da representante do Fórum Nacional das Pessoas com Deficiência Regina Atala, da coordenadora-geral de Prevenção à Violência contra as Mulheres do Ministério das Mulheres, Anita Cunha Monteiro, e da ex-deputada Rosinha da Adefal. Izabel Maior mencionou os senadores Paulo Paim, Mara Gabrilli (PSD-SP) e Flávio Arns (PSB-PR) ao falar sobre a atuação parlamentar relacionada aos direitos das pessoas com deficiência.
Agência Senado (Reprodução autorizada mediante citação da Agência Senado)
Fonte: Agência Senado
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