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Debatedores cobram transparência na aplicação de recursos para os ianomâmis

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O ministro dos Povos Indígenas, Eloy Terena, apresentou nesta segunda-feira (10), em audiência pública da Subcomissão Permanente dos Povos Indígenas Yanomami, ações do governo na região, enquanto representantes de organizações indígenas e outros debatedores cobraram transparência na aplicação dos recursos públicos e apontaram dificuldades nas áreas de saúde, educação e segurança alimentar.

Com 9,66 milhões de hectares (96.650 quilômetros quadrados), a Terra Indígena Yanomami está localizada nos estados de Roraima e Amazonas, faz fronteira com a Venezuela e abriga os povos ianomâmi e Ye’kwana, além de povos indígenas isolados. O principal meio de acesso e transporte de cargas para a região é o aéreo, uma das dificuldades apontadas durante a audiência.

Terena informou que foram entregues mais de 56 mil cestas de alimentos, distribuídas em mais de 400 pontos estratégicos da região, e destacou a estrutura logística necessária para levar os alimentos às comunidades.

— Para conseguirmos entregar essa cesta, temos toda uma estrutura de logística, com um contrato já auditado pelo Tribunal de Contas da União. Esse documento prevê, por exemplo, a contratação tanto de asas fixas quanto de asas rotativas. Essas cestas saem de Boa Vista (RO) de avião, vão até os pontos de distribuição, e, desses pontos de distribuição, têm que seguir para as comunidades indígenas por meio de helicóptero, só para vocês terem uma ideia — explicou.

Transparência

A presidente da Comissão de Direitos Humanos (CDH) e autora do requerimento da audiência, senadora Damares Alves (Republicanos-DF), afirmou que é preciso esclarecer a execução dos recursos previstos nas medidas provisórias (MPs) 1.168/2023, 1.183/2023 e 1.209/2024. As duas primeiras perderam eficácia sem aprovação pelo Congresso Nacional. Já a MP 1.209/2024 foi convertida na Lei 14.922, de 2024. Damares também defendeu maior transparência na aplicação do orçamento destinado à saúde indígena.

— Algumas pessoas podem pensar que é muito dinheiro, mas a destinação desses recursos é uma dúvida que permanece no Brasil inteiro. E a gente pretende esclarecer por que, inclusive, vamos brigar por mais recursos na área. Onde está esse dinheiro, o que aconteceu com esse recurso, como ele foi executado e como ele ainda será executado? É o que queremos saber porque eu creio que ainda há recurso para executar — afirmou.

A presidente da Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai), Lucia Alberta Baré, destacou dificuldades de estrutura e de pessoal do órgão e mencionou a ausência de contratos para transporte fluvial e de veículos operacionais, principalmente para o transporte de alimentos. Segundo ela, o crédito extraordinário aberto em 2023 foi fundamental para levar equipes ao campo e iniciar a retomada da atuação institucional da Funai no território Yanomami.

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— Muitos órgãos vão lá, executam uma ação e retornam, mas a Funai continua no território junto com os povos indígenas. E isso é muito importante a gente deixar registrado aqui nesta Comissão — afirmou.

A presidente do Sindicato dos Empregados em Estabelecimentos Privados de Serviço de Saúde de Roraima, Joana Gouveia Mendes, relatou dificuldades para que municípios da região Norte tenham acesso a recursos destinados a áreas como educação, agricultura familiar indígena e vacinação. Segundo ela, a demora na chegada dos recursos prejudica a oferta de serviços às comunidades.

— Esses recursos passam por uma demora significativa para chegar na ponta, o que dificulta o acesso da população a esses serviços. Precisamos de ações claras e urgentes porque os indígenas sofrem muito, até mesmo com falta de alimentação, quando vem a escassez nos períodos de caça e pesca — disse.

Saúde e segurança alimentar

Vice-presidente da Associação do Povo Ye’Kuana do Brasil, Edmilson Ye’kwana relatou preocupação com a situação de saúde das crianças e afirmou que a coqueluche está entre os problemas enfrentados pelas comunidades. Segundo dados apresentados por ele na audiência, 23 casos da doença haviam sido confirmados em 2026 e três crianças haviam morrido desde o início do surto, em meados de abril.

Edmilson também afirmou que, da meta de 95% de cobertura vacinal prevista para o território, 57,8% das crianças haviam sido imunizadas até o primeiro ano de vida e 73,5% haviam recebido a dose antes de completar cinco anos. Ele defendeu a participação das lideranças indígenas na definição das ações financiadas com recursos públicos e afirmou que a prestação de contas deve demonstrar não apenas os valores gastos, mas os resultados obtidos nas comunidades.

— Prestação de contas não é apenas dizer quanto foi gasto: é demonstrar presença nas aldeias, prevenção, atendimento contínuo e redução das mortes evitáveis. Queremos conseguir enxergar esse orçamento dentro das nossas terras como um todo. Não basta informar quanto foi destinado. É preciso mostrar o que mudou na vida das comunidades — afirmou.

Procurador da República em Roraima, Alisson Marugal apresentou dados sobre a situação nutricional das crianças. Segundo ele, em 2022, 56% das crianças acompanhadas pela vigilância nutricional no território Yanomami apresentavam déficit de peso. De acordo com dados do Centro de Operações de Emergência (COE) citados pelo procurador, o índice caiu para 46% das crianças acompanhadas, uma redução de dez pontos percentuais em quatro anos.

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Marugal afirmou que não foi identificado projeto estruturante de segurança alimentar na Terra Indígena Yanomami, além da entrega emergencial de cestas básicas. Segundo ele, é necessário recuperar os sistemas produtivos, como roças, caça e pesca, nas áreas mais prejudicadas.

O procurador também relatou a existência de 23 escolas ianomâmis sem prédios próprios. Segundo ele, o acesso a essas unidades é exclusivamente por via aérea e, até maio de 2025, apenas três haviam recebido visita técnica de inspeção.

Orçamento

Para o consultor legislativo do Senado na área de orçamento público José Sérgio Pinheiro Machado Filho, a audiência ocorre em um momento importante para a elaboração do Orçamento da União para 2027. Segundo ele, é durante a discussão da proposta orçamentária que os diferentes setores podem apontar áreas prioritárias para investimentos.

— Estamos aqui, no dia 10 de agosto, e a proposta de orçamento do Executivo vai chegar dia 31 de agosto no Senado e na Câmara. A partir daí, vai começar então a rodada de discussões. E é neste momento que a gente tem que lutar por mais recursos estruturais para os povos indígenas, por exemplo — explicou.

O consultor explicou que créditos extraordinários são destinados a despesas imprevisíveis e urgentes e que, quando abertos por medida provisória, podem ser executados desde a publicação da medida, antes da conclusão da análise pelo Congresso Nacional.

— É como se fossem a UTI do orçamento. Quando se está nas últimas, o governo edita um crédito extraordinário. Trata-se de alguma emergência que a gente não esperava, sendo algo imprevisível e urgente. É quando temos que salvar vidas, o agora. É quando, primeiro a gente gasta, depois a gente explica. Mas esse não é o ideal. O ideal seria a gente sempre prevenir — afirmou.

Ibama 

A diretora de Proteção Ambiental do Ibama, Carolina Vieira Ribeiro de Assis Bastos, informou que os principais gastos do órgão no território ianomâmi estão relacionados à logística, ao combate a incêndios e à fiscalização. Segundo ela, os voos realizados entre 2023 e 2026 para ações como o combate à mineração ilegal custaram R$ 33 milhões.

Também participaram do debate o presidente da Ypassali Associação Sanumá, Mateus Ricardo Sanuma, e a auditora-chefe-adjunta da Unidade de Auditoria Especializada em Agricultura, Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável do Tribunal de Contas da União (TCU) Cynthia de Freitas Queiroz Berberian.

Agência Senado (Reprodução autorizada mediante citação da Agência Senado)

Fonte: Agência Senado

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Participantes de sessão cobram avaliação biopsicossocial de PCDs

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Em sessão especial do Senado para celebrar o Dia Nacional de Luta da Pessoa com Deficiência, nesta segunda-feira (21), especialistas cobraram a implementação da avaliação biopsicossocial unificada, prevista no Estatuto da Pessoa com Deficiência, para facilitar o acesso a políticas de inclusão. Também defenderam a matrícula de crianças com deficiência em escolas comuns.

O Censo 2022 do IBGE identificou 14,4 milhões de pessoas com deficiência no Brasil, o equivalente a 7,3% da população com 2 anos ou mais.

A senadora Damares Alves (Republicanos-DF), que presidiu a sessão, afirmou que a Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência da Organização das Nações Unidas (ONU) levou o poder público a adaptar a sociedade às necessidades desse público. Segundo ela, antes predominava a perspectiva médica, “como se a pessoa tivesse um defeito a ser consertado”. A Convenção foi aprovada pelo Congresso Nacional em 2008 e promulgada no ano seguinte.

— É a rua que tem que ter rampa, é o transporte que tem que ser acessível, é a escola regular que tem que acolher com atendimento especializado. É o governo que tem que dar as mãos. Não é caridade, é direito.

Autor do requerimento da sessão (RQS 53/2026), o senador Paulo Paim (PT-RS) afirmou que a inclusão social das pessoas com deficiência depende da valorização da pluralidade.  

— Quando derrubamos as barreiras do preconceito e do espaço, edificamos uma sociedade onde cada corpo tem o direito sagrado ao protagonismo e ao pertencimento — disse, em participação remota.

Avaliação biopsicossocial

Damares e Paim afirmaram que a avaliação biopsicossocial prevista no Estatuto da Pessoa com Deficiência ainda não foi regulamentada na forma unificada defendida pelos participantes da sessão. O Estatuto da PCD, fruto de um projeto apresentado por Paim, estabelece que, quando necessária, a avaliação deve ser biopsicossocial, realizada por equipe multiprofissional e interdisciplinar, considerando impedimentos nas funções e estruturas do corpo, fatores socioambientais, psicológicos e pessoais, limitações no desempenho de atividades e restrições de participação.

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A representante da Rede Brasileira de Inclusão da Pessoa com Deficiência, Tereza Cristina Rodrigues Villela, afirmou que o documento deverá auxiliar o cadastro-inclusão, destinado a reunir informações sobre pessoas com deficiência que necessitam de assistência governamental. Segundo relatório de 2023 do governo federal citado na sessão, um formulário unificado também poderá facilitar o acesso aos benefícios sociais.

Entre os direitos destinados às pessoas com deficiência estão reserva de vagas em concursos públicos e em empresas com mais de 100 empregados, o Benefício de Prestação Continuada (BPC) para pessoas de baixa renda que atendam aos requisitos legais e benefícios tributários previstos em lei.

Escolas comuns

A presidente da Federação das Associações de Síndrome de Down, Cleunice Bohn de Lima, defendeu que crianças com deficiência sejam educadas em escolas comuns, e não exclusivamente em escolas especiais. Segundo ela, a convivência com pessoas sem deficiência contribui para a inclusão da criança na sociedade e no mercado de trabalho.

— Quando uma escola diz “esse aluno com deficiência não consegue participar da escola comum”, precisamos perguntar: o que a escola está fazendo para remover as barreiras que impedem essa participação? É na escola comum que as PCDs têm oportunidade de conviver com a diversidade e desenvolver processos psicológicos.

Cleunice pediu a aprovação do PL 401/2019, que estabelece que a pessoa com deficiência seja considerada idosa a partir dos 50 anos, com possibilidade de redução dessa idade mediante avaliação biopsicossocial multidisciplinar. A proposta está pronta para deliberação do Plenário do Senado. Segundo dados analisados pelo Instituto Rodrigo Mendes a partir de informações do Inep, 46,8% das crianças com deficiência estudavam em classes comuns em 2007. Em 2023, o percentual chegou a 92,6%.

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Participação social

Celebrado anualmente em 21 de setembro, o Dia Nacional de Luta da Pessoa com Deficiência foi instituído pela Lei 11.133, de 2005. Na sessão, o representante do Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania, Alex Reinecke, afirmou que a mobilização das pessoas com deficiência contribuiu, após a redemocratização, para a participação desse grupo na elaboração de políticas públicas.

— Introduziram, a partir de suas experiências e conhecimentos, novas maneiras de compreender a deficiência e a autonomia. As PCDs não são apenas destinatárias de ações estatais, são cidadãs, lideranças, trabalhadoras e produtoras de conhecimento.

Reinecke citou dados do IBGE para apontar diferenças entre pessoas com e sem deficiência no mercado de trabalho e na educação. Segundo os dados mencionados na sessão, em 2022, 29% das pessoas com deficiência em idade de trabalhar estavam empregadas, ante 55,8% das pessoas sem deficiência. Entre as pessoas de 15 a 29 anos, a taxa de analfabetismo era de 12,2% entre as pessoas com deficiência e de 1% entre as pessoas sem deficiência.

A sessão também contou com a participação da ex-secretária de Direitos das Pessoas com Deficiência Izabel Maior, da professora Érica Curado, da representante do Fórum Nacional das Pessoas com Deficiência Regina Atala, da coordenadora-geral de Prevenção à Violência contra as Mulheres do Ministério das Mulheres, Anita Cunha Monteiro, e da ex-deputada Rosinha da Adefal. Izabel Maior mencionou os senadores Paulo Paim, Mara Gabrilli (PSD-SP) e Flávio Arns (PSB-PR) ao falar sobre a atuação parlamentar relacionada aos direitos das pessoas com deficiência.

Agência Senado (Reprodução autorizada mediante citação da Agência Senado)

Fonte: Agência Senado

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