Brasil
Debatedores pedem fortalecimento da rede de proteção aos idosos
Publicado em
16 de junho de 2025por
Da Redação
A necessidade de mais atenção do poder público às pessoas idosas foi o foco da audiência pública da Comissão de Direitos Humanos (CDH) desta segunda-feira (16). O debate fez referência ao Dia Mundial de Conscientização da Violência contra a Pessoa Idosa, comemorado no domingo (15). Participantes do debate defenderam um cuidado ampliado com essa parcela da população, com o fortalecimento da rede de proteção e o combate efetivo às violações de direitos dos idosos do país.
Presidente do colegiado, a senadora Damares Alves (Republicanos-DF) é autora do requerimento para o ciclo de debates sobre o tema. De acordo com a parlamentar, embora a Política Nacional do Idoso (Lei 8.842, de 1994) vise assegurar direitos sociais e criar condições para promover a autonomia, integração e participação efetiva na sociedade, na prática ainda é necessário discutir o assunto, em virtude das estatísticas crescentes de diversas formas de violência contra os idosos no Brasil (veja mais sobre os tipos de violência abaixo).
— Celebrar o Dia Mundial de Conscientização da Violência contra a Pessoa Idosa é, sim, fundamental, mas vai além. É um chamado contínuo à ação, já que a realidade nos impõe desafios crescentes. A longevidade, que deveria ser motivo de celebração e orgulho, tem sido ofuscada por uma estatística alarmante: o aumento das violências contra esse grupo — disse a senadora, que comandou a audiência.
Crescimento da violência
Segundo o Censo Populacional de 2022, a população de idosos com 60 anos ou mais atingiu 32,1 milhões, correspondendo a 15,6% da população brasileira. Em 2010, esse grupo representava 10,8% da população, segundo a senadora. Porém, ao mesmo tempo em que cresce a população de pessoas idosas, é registrado também um crescimento nas violências contra esse grupo populacional, disse a presidente da CDH.
Dados recentes da Ouvidoria Nacional dos Direitos Humanos do Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania (MDHC), citados na audiência, revelam que, em 2024, foram registradas 179,6 mil denúncias de violações de direitos humanos contra a pessoa idosa, sendo recorrentes as violências físicas, psicológicas, negligência, abandono e violência institucional, abuso financeiro, violência patrimonial, violência sexual e discriminação.
Em 2024, a negligência foi a principal violação de direitos, compreendendo 17,51% das denúncias registradas. Ela foi seguida pela exposição de risco à saúde, com 14,68%; pela tortura psíquica, com 12,89%; e por maus-tratos, correspondendo a 12,20% do total de denúncias registradas. Damares e outros participantes do debate ressaltaram, no entanto, que o aumento dos registros se deve também ao aperfeiçoamento das linhas de comunicação e ao crescimento do número de canais de denúncias ao longo do tempo.
Violência funcional
Presidente da Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia (SBGG), Marco Túlio Gualberto Cintra ressaltou uma violência do ponto de vista funcional que os idosos também sofrem no Brasil: a falta de acessibilidade e a ausência ou insuficiência do preparo profissional dos responsáveis pelo atendimento a essa população.
Segundo o debatedor, em muitas cidades brasileiras ainda falta uma rede de proteção e de denúncia coesa e acessível e há poucas delegacias especializadas, centros de referência e equipes multidisciplinares capacitadas. Além disso, ele mencionou uma carência de treinamento específico para profissionais de áreas como saúde, segurança pública, assistência social e judiciário para identificar, acolher e encaminhar casos de violência contra idosos.
Marco Túlio reforçou também que muitos idosos sofrem de algum nível de comprometimento cognitivo, o que acarreta dependência e, consequentemente, sujeição a casos de violência e de abandono dentro de suas próprias casas. Ele falou da necessidade de a sociedade denunciar casos de abusos, ressaltando que há possibilidade de anonimato, no intuito de todos ajudarem a erradicar situações abusivas contra idosos no Brasil.
— Muitos idosos são pessoas que passam o dia sozinhas, não sabem o que está sendo feito do dinheiro delas, sofrem xingamentos, são dependentes e não têm condições de buscar nem mesmo uma unidade de saúde próxima de suas casas. Os agressores são, geralmente, parentes. E, muitas vezes, são os próprios filhos. Então, ao presenciar uma cena de violação de direitos, denuncie, porque uma mensagem para o Disque 100 [por exemplo] pode mudar o destino de uma vida — aconselhou o debatedor.
‘Idadismo’
O secretário nacional dos Direitos da Pessoa Idosa, do Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania, Alexandre da Silva, ressaltou que o preconceito e a discriminação por questões de idade é uma realidade no Brasil. Ele observou que os números da violência têm a ver também com o maior e melhor acesso da sociedade às informações, mas ponderou que algumas formas de agressões não podem ser mensuradas por se manifestarem, muitas vezes, de formas sutis.
— Uma situação é quando a pessoa idosa não maneja o seu próprio recurso [financeiro ou material], o que já define um pouco a sutileza e, ao mesmo tempo, a naturalização da violência ou das violências contra as pessoas idosas.
Alexandre da Silva pontuou que o número de brasileiros idosos tem aumentado a cada dia e que é possível envelhecer com qualidade. Para o secretário, é importante que a sociedade e os governos incentivem essa população aos estudos e à empregabilidade. Ele também afirmou que é preciso evitar estereótipos, como figuras de alguém com postura encurvada ou usando bengala.
— Não é só a violência física que marca. A violência é sempre na intensidade de quem a sente, não cabe a nós falar se é pouco, se é muito, se é uma palavra ou não. Além da informação, da conscientização, é preciso apresentar boas práticas mostrando, por exemplo, até como podemos nos comunicar por meio das redes sociais e de materiais diversos para nos referenciarmos às pessoas idosas.
O secretário disse ser fundamental o Brasil ratificar a Convenção Interamericana sobre a Proteção dos Direitos Humanos dos Idosos. Adotado no âmbito da Organização dos Estados Americanos (OEA), o tratado internacional visa promover, proteger e garantir o pleno exercício dos direitos humanos e liberdades fundamentais das pessoas idosas, em condições de igualdade. O Brasil foi o primeiro país a assinar o documento, junto com Argentina, Chile, Costa Rica e Uruguai. O texto do decreto aguarda aprovação no Congresso Nacional.
— Essa ratificação é algo que a sociedade está demandando do Executivo e do Legislativo, e o Brasil não pode ficar para trás — defendeu.
Boas práticas
Damares ressaltou que, além de discutir violações de direitos, também é importante informar a sociedade sobre boas práticas e levar uma mensagem de esperança à população. Para a senadora, iniciativas de governo bem-sucedidas merecem ser transformadas em normas jurídicas, e não devem ocorrer apenas por meio de decretos presidenciais, e sim como políticas permanentes e com previsão de recursos orçamentários próprios.
— As boas políticas públicas que estão dando certo, seja qual for o governo, precisam ser transformadas em leis. Há muita coisa boa sendo feita.
Damares citou, por exemplo, a Lei 10.741, de 2003, conhecida como Estatuto da Pessoa Idosa. O texto foi editado para regular os direitos assegurados às pessoas com idade igual ou superior a 60 anos, de modo a dar-lhes, entre outros benefícios, preferência na formulação e execução de políticas públicas pelo Estado.
Tipos de violências que os idosos mais sofrem: |
|
| Física | Agressões, empurrões, lesões corporais |
| Psicológica/emocional | Ameaças, humilhações, insultos, isolamento, terrorismo psicológico |
| Financeira/patrimonial | Exploração de bens, aposentadorias, fraudes, apropriação indébita (é o tipo mais subnotificado e um dos mais prevalentes) |
| Negligência e abandono | Falta de cuidados básicos, omissão de socorro, privação de necessidades essenciais (higiene, alimentação, medicamentos) |
| Sexual | Abuso e exploração sexual |
| Institucional | Praticada por instituições ou profissionais que desrespeitam os direitos ou negligenciam o cuidado |
Agência Senado (Reprodução autorizada mediante citação da Agência Senado)
Fonte: Agência Senado
Brasil
Participantes de sessão cobram avaliação biopsicossocial de PCDs
Published
3 dias agoon
21 de setembro de 2026By
Da Redação
Em sessão especial do Senado para celebrar o Dia Nacional de Luta da Pessoa com Deficiência, nesta segunda-feira (21), especialistas cobraram a implementação da avaliação biopsicossocial unificada, prevista no Estatuto da Pessoa com Deficiência, para facilitar o acesso a políticas de inclusão. Também defenderam a matrícula de crianças com deficiência em escolas comuns.
O Censo 2022 do IBGE identificou 14,4 milhões de pessoas com deficiência no Brasil, o equivalente a 7,3% da população com 2 anos ou mais.
A senadora Damares Alves (Republicanos-DF), que presidiu a sessão, afirmou que a Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência da Organização das Nações Unidas (ONU) levou o poder público a adaptar a sociedade às necessidades desse público. Segundo ela, antes predominava a perspectiva médica, “como se a pessoa tivesse um defeito a ser consertado”. A Convenção foi aprovada pelo Congresso Nacional em 2008 e promulgada no ano seguinte.
— É a rua que tem que ter rampa, é o transporte que tem que ser acessível, é a escola regular que tem que acolher com atendimento especializado. É o governo que tem que dar as mãos. Não é caridade, é direito.
Autor do requerimento da sessão (RQS 53/2026), o senador Paulo Paim (PT-RS) afirmou que a inclusão social das pessoas com deficiência depende da valorização da pluralidade.
— Quando derrubamos as barreiras do preconceito e do espaço, edificamos uma sociedade onde cada corpo tem o direito sagrado ao protagonismo e ao pertencimento — disse, em participação remota.
Avaliação biopsicossocial
Damares e Paim afirmaram que a avaliação biopsicossocial prevista no Estatuto da Pessoa com Deficiência ainda não foi regulamentada na forma unificada defendida pelos participantes da sessão. O Estatuto da PCD, fruto de um projeto apresentado por Paim, estabelece que, quando necessária, a avaliação deve ser biopsicossocial, realizada por equipe multiprofissional e interdisciplinar, considerando impedimentos nas funções e estruturas do corpo, fatores socioambientais, psicológicos e pessoais, limitações no desempenho de atividades e restrições de participação.
A representante da Rede Brasileira de Inclusão da Pessoa com Deficiência, Tereza Cristina Rodrigues Villela, afirmou que o documento deverá auxiliar o cadastro-inclusão, destinado a reunir informações sobre pessoas com deficiência que necessitam de assistência governamental. Segundo relatório de 2023 do governo federal citado na sessão, um formulário unificado também poderá facilitar o acesso aos benefícios sociais.
Entre os direitos destinados às pessoas com deficiência estão reserva de vagas em concursos públicos e em empresas com mais de 100 empregados, o Benefício de Prestação Continuada (BPC) para pessoas de baixa renda que atendam aos requisitos legais e benefícios tributários previstos em lei.
Escolas comuns
A presidente da Federação das Associações de Síndrome de Down, Cleunice Bohn de Lima, defendeu que crianças com deficiência sejam educadas em escolas comuns, e não exclusivamente em escolas especiais. Segundo ela, a convivência com pessoas sem deficiência contribui para a inclusão da criança na sociedade e no mercado de trabalho.
— Quando uma escola diz “esse aluno com deficiência não consegue participar da escola comum”, precisamos perguntar: o que a escola está fazendo para remover as barreiras que impedem essa participação? É na escola comum que as PCDs têm oportunidade de conviver com a diversidade e desenvolver processos psicológicos.
Cleunice pediu a aprovação do PL 401/2019, que estabelece que a pessoa com deficiência seja considerada idosa a partir dos 50 anos, com possibilidade de redução dessa idade mediante avaliação biopsicossocial multidisciplinar. A proposta está pronta para deliberação do Plenário do Senado. Segundo dados analisados pelo Instituto Rodrigo Mendes a partir de informações do Inep, 46,8% das crianças com deficiência estudavam em classes comuns em 2007. Em 2023, o percentual chegou a 92,6%.
Participação social
Celebrado anualmente em 21 de setembro, o Dia Nacional de Luta da Pessoa com Deficiência foi instituído pela Lei 11.133, de 2005. Na sessão, o representante do Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania, Alex Reinecke, afirmou que a mobilização das pessoas com deficiência contribuiu, após a redemocratização, para a participação desse grupo na elaboração de políticas públicas.
— Introduziram, a partir de suas experiências e conhecimentos, novas maneiras de compreender a deficiência e a autonomia. As PCDs não são apenas destinatárias de ações estatais, são cidadãs, lideranças, trabalhadoras e produtoras de conhecimento.
Reinecke citou dados do IBGE para apontar diferenças entre pessoas com e sem deficiência no mercado de trabalho e na educação. Segundo os dados mencionados na sessão, em 2022, 29% das pessoas com deficiência em idade de trabalhar estavam empregadas, ante 55,8% das pessoas sem deficiência. Entre as pessoas de 15 a 29 anos, a taxa de analfabetismo era de 12,2% entre as pessoas com deficiência e de 1% entre as pessoas sem deficiência.
A sessão também contou com a participação da ex-secretária de Direitos das Pessoas com Deficiência Izabel Maior, da professora Érica Curado, da representante do Fórum Nacional das Pessoas com Deficiência Regina Atala, da coordenadora-geral de Prevenção à Violência contra as Mulheres do Ministério das Mulheres, Anita Cunha Monteiro, e da ex-deputada Rosinha da Adefal. Izabel Maior mencionou os senadores Paulo Paim, Mara Gabrilli (PSD-SP) e Flávio Arns (PSB-PR) ao falar sobre a atuação parlamentar relacionada aos direitos das pessoas com deficiência.
Agência Senado (Reprodução autorizada mediante citação da Agência Senado)
Fonte: Agência Senado
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