Brasil
Debates na CCT apontam relevância da retomada na produção de semicondutores
Publicado em
5 de dezembro de 2024por
Da Redação
A reativação do Centro Nacional de Tecnologia Eletrônica Avançada (Ceitec), empresa pública de produção de semicondutores, foi classificada como positiva para a inserção do Brasil em um segmento altamente competitivo. As duas audiências públicas da Comissão de Ciência e Tecnologia (CCT) sobre o tema, realizadas na quarta-feira (4), foram marcadas por alertas de especialistas sobre a dependência do Brasil de componentes importados e pela perspectiva de um crescimento nos investimentos de alta tecnologia no país.
As audiências atendem a requerimentos (REQ 20/2023 — CCT e REQ 8/2024 — CCT) do senador Fernando Dueire (MDB-PE), que presidiu os eventos, e do senador Carlos Viana (Podemos-MG), respectivamente. Na abertura da primeira audiência, Dueire explicou que, em 2021, o então presidente Jair Bolsonaro tinha dado início à liquidação do Ceitec, sediado em Porto Alegre, que enfrentava prejuízos desde sua fundação. O Tribunal de Contas da União (TCU), em 2022, interrompeu o processo, e, em 2023, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva decidiu reverter a liquidação do Ceitec e buscar a recuperação da empresa.
— A Associação dos Colaboradores do Ceitec argumenta que a baixa lucratividade é devida a contratos frustrados e acredita em aumento de receitas no futuro — acrescentou.
Dueire compartilhou sua preocupação com a instabilidade global no fornecimento de semicondutores, que deixa o Brasil em posição vulnerável.
— Tivemos o problema da pandemia, depois tivemos problemas em Taiwan, agora a Coreia do Sul também passa por problemas. Temos problemas geopolíticos e de calamidades que trazem impacto efetivo e constatado, e nós precisamos ter clareza no enfrentamento desse desafio.
Riscos globais
Eugênio Vargas Garcia, diretor do departamento de Ciência, Tecnologia, Inovação e Propriedade Intelectual do Ministério das Relações Exteriores (MRE), chamou atenção para os riscos globais da concentração da indústria de semicondutores no leste asiático e da hegemonia de empresas dos Estados Unidos no desenvolvimento desses componentes. Ele mostrou dados sobre a grande valorização de mercado das empresas de semicondutores, o que se deve, entre outros fatores, à demanda por sistemas de inteligência artificial (IA).
— Os chips que impulsionam a IA generativa estão entre os mais caros de seu tipo. Essa demanda aquecida, e o número pequeno de fornecedores, provocam um aumento vertiginoso dos preços,e a produção tem dificuldade em atender as necessidades do mercado.
Para Garcia, o Brasil precisa estar atento e identificar oportunidades para atração de investimentos na reorganização do mercado global de semicondutores, e cabe ao país oferecer confiabilidade e segurança jurídica para aumentar sua integração numa cadeia mundial de suprimentos de alta tecnologia.
Leonardo Boselli da Motta, representando o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), lembrou os obstáculos ao comércio internacional durante a pandemia de covid-19, que teria evidenciado o risco da dependência de componentes estrangeiros. Ele mencionou, entre outras iniciativas do governo, o programa Brasil Semicondutores, e o lançamento de mecanismos de atração de investimentos do exterior.
— Promover capacitações, desenvolver recursos humanos, incentivar desenvolvimento de novas tecnologias e inovação: tudo isso para a gente conseguir atingir esse patamar que a gente deseja para o país como produtor de semicondutores.
Nova rota
No mesmo sentido, Henrique de Oliveira Miguel, secretário de Ciência e Tecnologia para Transformação Digital do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), espera que o Brasil possa se beneficiar na busca global de países alternativos para a produção de semicondutores. Ele entende que o Ceitec já tem uma “nova rota tecnológica” definida, a ser implementada na retomada da empresa.
— Nós já temos informações de que o Ceitec já tem clientes para este ano e para o próximo ano. Nós estamos alterando o processo produtivo básico para, exatamente, incentivar essa parceria com o setor privado, mas também com o setor acadêmico.
O presidente da Associação Brasileira da Indústria de Semicondutores (Abisemi), Rogério Nunes, destacou a importância do desenvolvimento de semicondutores como questão de soberania nacional, no que o Brasil pode se beneficiar, entre outros fatores, da reestruturação do Ceitec e da política setorial definida pela Lei 14.968, de 2024.
— A questão geopolítica, com o aumento de impostos de importação de produtos oriundos da Ásia nos Estados Unidos, poderá trazer ao Brasil uma grande oportunidade de atrair manufatura da Ásia, China, Taiwan, fabricando produtos no Brasil e exportando para Estados Unidos ou Europa.
Israel Guratti, gerente do Departamento de Tecnologia e Política Industrial da Associação Brasileira da Indústria Elétrica e Eletrônica (Abinee), lamentou a permanência de “forte dependência geopolítica” em insumos de tecnologia da informação, incluindo semicondutores, e disse esperar que o Ceitec possa voltar a produzir chips de RFID (identificação por radiofrequência, na sigla em inglês).
— Com estímulo à inovação, nós podemos ter a produção dos semicondutores, o projeto, e resultando em maior desenvolvimento regional nos institutos, empregos qualificados nas regiões Norte, Nordeste e, também, flexibilidade por parte da indústria para cumprir as exigências de conteúdo local de forma competitiva e atendendo mercados externos.
Conduzida pelo senador Rodrigo Cunha (Podemos-PR), a segunda audiência ouviu José Messias de Souza, diretor administrativo e financeiro do Ceitec e representante do MDIC. Ele salientou que o Ceitec tem uma estratégia tecnológica e comercial afinada para “retomar plenamente” seus objetivos estratégico, com destaque para o fornecimento de soluções de tecnologia para economia verde, e espera a participação de parceiros em outros países.
— Dispositivos para eletrônica de potência, com aplicações em energia solar, energia eólica, hidrogênio verde, descarbonização da mobilidade, e até mesmo esses grandes data centers para inteligência artificial estariam dentro do espectro do redirecionamento da infraestrutura de fabricação.
Real potencial
Julio Cesar de Oliveira, presidente da Associação dos Colaboradores do Ceitec, lembrou que a empresa pública registrou 46 patentes no Brasil e no exterior. Para ele, a tentativa de sua liquidação teria se baseado em análise “puramente contábil” que não teria levado em conta os objetivos sociais da empresa nem avaliado o real potencial do Ceitec.
— E, também, uma expectativa descolada da realidade, comparando o Ceitec, por exemplo, com empresas como Intel, Nvidia ou TSMC, que têm milhares de funcionários, o tamanho é 20 vezes maior que da planta do Ceitec. Essa comparação não é justa.
Oliveira cobrou a recomposição do orçamento do Ceitec e defendeu a elevação da indústria de semicondutores à condição de setor estratégico de Estado.
E o auditor-chefe da AudBancos do TCU, Agostinho Garrido Teixeira de Carvalho, comentou o processo que interrompeu a desestatização do Ceitec. Os auditores observaram que, nos argumentos do governo, faltaram razões de interesse público que justificassem a liquidação da empresa. O TCU ainda questionou a regularização do terreno doado ao Ceitec e os elevados custos previstos para o desmonte da sala limpa da unidade industrial.
Agência Senado (Reprodução autorizada mediante citação da Agência Senado)
Fonte: Agência Senado
Brasil
Participantes de sessão cobram avaliação biopsicossocial de PCDs
Published
4 dias agoon
21 de setembro de 2026By
Da Redação
Em sessão especial do Senado para celebrar o Dia Nacional de Luta da Pessoa com Deficiência, nesta segunda-feira (21), especialistas cobraram a implementação da avaliação biopsicossocial unificada, prevista no Estatuto da Pessoa com Deficiência, para facilitar o acesso a políticas de inclusão. Também defenderam a matrícula de crianças com deficiência em escolas comuns.
O Censo 2022 do IBGE identificou 14,4 milhões de pessoas com deficiência no Brasil, o equivalente a 7,3% da população com 2 anos ou mais.
A senadora Damares Alves (Republicanos-DF), que presidiu a sessão, afirmou que a Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência da Organização das Nações Unidas (ONU) levou o poder público a adaptar a sociedade às necessidades desse público. Segundo ela, antes predominava a perspectiva médica, “como se a pessoa tivesse um defeito a ser consertado”. A Convenção foi aprovada pelo Congresso Nacional em 2008 e promulgada no ano seguinte.
— É a rua que tem que ter rampa, é o transporte que tem que ser acessível, é a escola regular que tem que acolher com atendimento especializado. É o governo que tem que dar as mãos. Não é caridade, é direito.
Autor do requerimento da sessão (RQS 53/2026), o senador Paulo Paim (PT-RS) afirmou que a inclusão social das pessoas com deficiência depende da valorização da pluralidade.
— Quando derrubamos as barreiras do preconceito e do espaço, edificamos uma sociedade onde cada corpo tem o direito sagrado ao protagonismo e ao pertencimento — disse, em participação remota.
Avaliação biopsicossocial
Damares e Paim afirmaram que a avaliação biopsicossocial prevista no Estatuto da Pessoa com Deficiência ainda não foi regulamentada na forma unificada defendida pelos participantes da sessão. O Estatuto da PCD, fruto de um projeto apresentado por Paim, estabelece que, quando necessária, a avaliação deve ser biopsicossocial, realizada por equipe multiprofissional e interdisciplinar, considerando impedimentos nas funções e estruturas do corpo, fatores socioambientais, psicológicos e pessoais, limitações no desempenho de atividades e restrições de participação.
A representante da Rede Brasileira de Inclusão da Pessoa com Deficiência, Tereza Cristina Rodrigues Villela, afirmou que o documento deverá auxiliar o cadastro-inclusão, destinado a reunir informações sobre pessoas com deficiência que necessitam de assistência governamental. Segundo relatório de 2023 do governo federal citado na sessão, um formulário unificado também poderá facilitar o acesso aos benefícios sociais.
Entre os direitos destinados às pessoas com deficiência estão reserva de vagas em concursos públicos e em empresas com mais de 100 empregados, o Benefício de Prestação Continuada (BPC) para pessoas de baixa renda que atendam aos requisitos legais e benefícios tributários previstos em lei.
Escolas comuns
A presidente da Federação das Associações de Síndrome de Down, Cleunice Bohn de Lima, defendeu que crianças com deficiência sejam educadas em escolas comuns, e não exclusivamente em escolas especiais. Segundo ela, a convivência com pessoas sem deficiência contribui para a inclusão da criança na sociedade e no mercado de trabalho.
— Quando uma escola diz “esse aluno com deficiência não consegue participar da escola comum”, precisamos perguntar: o que a escola está fazendo para remover as barreiras que impedem essa participação? É na escola comum que as PCDs têm oportunidade de conviver com a diversidade e desenvolver processos psicológicos.
Cleunice pediu a aprovação do PL 401/2019, que estabelece que a pessoa com deficiência seja considerada idosa a partir dos 50 anos, com possibilidade de redução dessa idade mediante avaliação biopsicossocial multidisciplinar. A proposta está pronta para deliberação do Plenário do Senado. Segundo dados analisados pelo Instituto Rodrigo Mendes a partir de informações do Inep, 46,8% das crianças com deficiência estudavam em classes comuns em 2007. Em 2023, o percentual chegou a 92,6%.
Participação social
Celebrado anualmente em 21 de setembro, o Dia Nacional de Luta da Pessoa com Deficiência foi instituído pela Lei 11.133, de 2005. Na sessão, o representante do Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania, Alex Reinecke, afirmou que a mobilização das pessoas com deficiência contribuiu, após a redemocratização, para a participação desse grupo na elaboração de políticas públicas.
— Introduziram, a partir de suas experiências e conhecimentos, novas maneiras de compreender a deficiência e a autonomia. As PCDs não são apenas destinatárias de ações estatais, são cidadãs, lideranças, trabalhadoras e produtoras de conhecimento.
Reinecke citou dados do IBGE para apontar diferenças entre pessoas com e sem deficiência no mercado de trabalho e na educação. Segundo os dados mencionados na sessão, em 2022, 29% das pessoas com deficiência em idade de trabalhar estavam empregadas, ante 55,8% das pessoas sem deficiência. Entre as pessoas de 15 a 29 anos, a taxa de analfabetismo era de 12,2% entre as pessoas com deficiência e de 1% entre as pessoas sem deficiência.
A sessão também contou com a participação da ex-secretária de Direitos das Pessoas com Deficiência Izabel Maior, da professora Érica Curado, da representante do Fórum Nacional das Pessoas com Deficiência Regina Atala, da coordenadora-geral de Prevenção à Violência contra as Mulheres do Ministério das Mulheres, Anita Cunha Monteiro, e da ex-deputada Rosinha da Adefal. Izabel Maior mencionou os senadores Paulo Paim, Mara Gabrilli (PSD-SP) e Flávio Arns (PSB-PR) ao falar sobre a atuação parlamentar relacionada aos direitos das pessoas com deficiência.
Agência Senado (Reprodução autorizada mediante citação da Agência Senado)
Fonte: Agência Senado
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