Brasil
Juristas divergem sobre inclusão do direito digital no Código Civil
Publicado em
16 de outubro de 2025por
Da Redação
A inclusão do direito digital no Código Civil foi tema de audiência pública nesta quinta-feira (16) na comissão temporária que trabalha na atualização do diploma legal. Presidido pelo senador Rodrigo Pacheco (PSD-MG), o colegiado analisa o anteprojeto apresentado no ano passado pela comissão especial de juristas criada com esse propósito.
O texto passou a tramitar como Projeto de Lei (PL) 4/2025, apresentado pelo próprio Pacheco, e na comissão temporária tem como relator o senador Veneziano Vital do Rêgo (MDB-PB). A proposta atualiza mais de 900 artigos e inclui 300 novos dispositivos na norma que rege a vida civil, que entrou em vigor em 2002. Além do direito digital, a parte geral do novo Código Civil também esteve em debate na segunda audiência pública promovida pelo comissão.
Na audiência desta quinta, os juristas convidados manifestaram divergências quanto à inserção de um livro de direito digital no novo Código. Especialista no tema, a advogada Laura Porto — que participou da comissão especial que elaborou o PL 4/2025 e é a autora da parte sobre direito digital — afirmou que os senadores têm a oportunidade única de colocar o Brasil na vanguarda. Ela disse ser preciso incluir no Código Civil os conceitos do século 21.
— O que estamos propondo aqui é algo extremamente disruptivo e muito necessário. Não é fácil legislar sobre um tema tão dinâmico, como o digital, que se altera todos os dias, e isso eu creio que já é de pleno conhecimento de todos […] Num mundo hiperdigitalizado como o nosso, que os senhores senadores não temam a inovação — afirmou.
Mas para o professor de direito civil e direito digital da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj), Carlos Affonso de Souza, inserir um livro sobre o tema na legislação pode ter efeitos adversos, como a percepção de que a internet e as novas tecnologias seriam “únicas e exigiriam regras próprias”. Ele criticou a adoção de tratamentos distintos para a internet e manifestou preocupação com o possível engessamento de uma norma sobre o ambiente digital numa lei permanente como é o Código Civil. Para o professor, a proposta pode gerar um cenário de insegurança jurídica, razão pela qual o assunto precisa de mais debates.
— Tecnologia digital é sempre dinâmica e isso faz com que a regulação precise sempre ser atualizada. Faz-nos questionar como essa tecnologia, que gera também a transformação, seria conciliada com esse propósito mais duradouro de um Código Civil, em comparação com leis esparsas e setoriais — disse Carlos Affonso de Souza.
Relator, Veneziano Vital do Rêgo observou que pontos de vista distintos são algo natural e considerou apropriada a realização de novas audiências públicas “de modo a ampliar as visões a respeito do assunto”. Ele ressaltou o dinamismo do ambiente digital e disse ser necessário ouvir diferentes opiniões para embasar seu relatório.
— É preciso um balizamento no preenchimento das lacunas numa temática tão febril, tão rápida e tão dinâmica, que muda a cada instante — afirmou.
Presidente da Academia Mineira de Letras Jurídicas (AMLJ), o advogado José Anchieta da Silva discordou que o Código Civil esteja obsoleto e se manifestou contra a mudança do texto. Para ele, o PL 4/2025 não representa modernização, mas a criação de uma lei nova. Além disso, considerou equivocada a ideia da inclusão de um livro sobre direito digital no projeto em discussão.
— É fato que as leis, quando necessário, devem ser mudadas, de modo cauteloso. Todavia, pela dimensão da empreitada, o que se pretende é um novo Código. Nenhuma lei pode ser generalista, nenhuma lei pode ser do tipo ‘contempla tudo’ — declarou.
Paulo Doron Rehder de Araújo, professor da Fundação Getúlio Vargas de São Paulo (FGV-SP), defendeu uma lei que torne o Brasil capaz de enfrentar os desafios do século 21. Mas ressaltou que o PL 4/2025 é apenas um “pontapé inicial” e avaliou que o texto legislativo merece ser aperfeiçoado.
Professor de direito civil da Universidade Federal do Paraná (UFPR), Carlos Eduardo Pianovski falou da importância da manutenção de direitos individuais no projeto. Entre esses direitos que precisam ser garantidos, disse, estão o que assegura à pessoa poder recusar cirurgias e tratamentos médicos e normas que envolvem o pleno atendimento da vontade de quem tem incapacidade de decisão ou sofre de mobilidade reduzida.
Lacunas legais
Para o presidente da comissão temporária, Rodrigo Pacheco, a modernização da lei é fundamental para evitar, por exemplo, a invasão de competências entre os Poderes. Ele salientou que a sequência de debates deverá acolher todos os posicionamentos, de modo a que os senadores ouçam as opiniões tanto daqueles que defendem quanto dos que criticam a reforma.
— O compromisso que temos de atualização do Código Civil decorre dessa nossa preocupação, no Parlamento, da invasão de competências pelo Poder Judiciário. E aí não só do Supremo Tribunal Federal, mas em todas as instâncias […] essas lacunas precisam ser preenchidas em função da evolução social que acaba gerando conflitos e dilemas que precisam ser resolvidos, sempre com os sentimentos de justiça, de equidade, de equilíbrio — afirmou.
Pacheco se disse feliz com as críticas ao projeto, embora discorde de algumas. Ele afirmou que o diálogo não está esgotado. Além disso, adiantou que, mediante o debate, pontos do projeto poderão ser aperfeiçoados e outros até suprimidos.
O senador Carlos Portinho (PL-RJ) afirmou que os termos do PL 4/2025 devem ter caráter genérico, devido à constante atualização do universo digital e de modo a não engessar o novo Código Civil. O parlamentar pediu que todos tenham a “mente aberta” para a atualização do texto. Portinho também considerou normal haver críticas, mas ressaltou que todas as pessoas atualmente têm vida digital. Por isso, o assunto precisa ser tratado. Além disso, Portinho ressaltou que o Congresso Nacional é o lugar onde todas as opiniões serão ouvidas, por ser esse “exatamente o foro do amplo debate”.
— O direito digital é um tema em constante transformação e a opção de legislar sobre ele é um reconhecimento de que o assunto já está inserido na vida de toda a população. Se uma pessoa escolhesse hoje ir para uma caverna e viver alheia a todo esse ambiente digital, certamente, não vai só parar no tempo, mas vai retroceder no tempo — disse o senador.
Também participaram da audiência desta quinta-feira Rosa Maria de Andrade Nery e Flávio Tartuce, ambos relatores-gerais da comissão de juristas para atualização do Código Civil; Ricardo Campos, professor na Goethe Universität Frankfurt am Main; Rogério Marrone, desembargador do Tribunal de Justiça de São Paulo; e Maurício Bunazar, doutor em direito civil e professor do IBMEC-SP.
Novas audiências
Rodrigo Pacheco adiantou que a comissão promoverá audiências públicas em outras regiões, começando pelos estados do Rio de Janeiro e Minas Gerais, ouvindo integrantes de entidades representativas, das universidades e da sociedade civil.
Agência Senado (Reprodução autorizada mediante citação da Agência Senado)
Fonte: Agência Senado
Brasil
Participantes de sessão cobram avaliação biopsicossocial de PCDs
Published
4 dias agoon
21 de setembro de 2026By
Da Redação
Em sessão especial do Senado para celebrar o Dia Nacional de Luta da Pessoa com Deficiência, nesta segunda-feira (21), especialistas cobraram a implementação da avaliação biopsicossocial unificada, prevista no Estatuto da Pessoa com Deficiência, para facilitar o acesso a políticas de inclusão. Também defenderam a matrícula de crianças com deficiência em escolas comuns.
O Censo 2022 do IBGE identificou 14,4 milhões de pessoas com deficiência no Brasil, o equivalente a 7,3% da população com 2 anos ou mais.
A senadora Damares Alves (Republicanos-DF), que presidiu a sessão, afirmou que a Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência da Organização das Nações Unidas (ONU) levou o poder público a adaptar a sociedade às necessidades desse público. Segundo ela, antes predominava a perspectiva médica, “como se a pessoa tivesse um defeito a ser consertado”. A Convenção foi aprovada pelo Congresso Nacional em 2008 e promulgada no ano seguinte.
— É a rua que tem que ter rampa, é o transporte que tem que ser acessível, é a escola regular que tem que acolher com atendimento especializado. É o governo que tem que dar as mãos. Não é caridade, é direito.
Autor do requerimento da sessão (RQS 53/2026), o senador Paulo Paim (PT-RS) afirmou que a inclusão social das pessoas com deficiência depende da valorização da pluralidade.
— Quando derrubamos as barreiras do preconceito e do espaço, edificamos uma sociedade onde cada corpo tem o direito sagrado ao protagonismo e ao pertencimento — disse, em participação remota.
Avaliação biopsicossocial
Damares e Paim afirmaram que a avaliação biopsicossocial prevista no Estatuto da Pessoa com Deficiência ainda não foi regulamentada na forma unificada defendida pelos participantes da sessão. O Estatuto da PCD, fruto de um projeto apresentado por Paim, estabelece que, quando necessária, a avaliação deve ser biopsicossocial, realizada por equipe multiprofissional e interdisciplinar, considerando impedimentos nas funções e estruturas do corpo, fatores socioambientais, psicológicos e pessoais, limitações no desempenho de atividades e restrições de participação.
A representante da Rede Brasileira de Inclusão da Pessoa com Deficiência, Tereza Cristina Rodrigues Villela, afirmou que o documento deverá auxiliar o cadastro-inclusão, destinado a reunir informações sobre pessoas com deficiência que necessitam de assistência governamental. Segundo relatório de 2023 do governo federal citado na sessão, um formulário unificado também poderá facilitar o acesso aos benefícios sociais.
Entre os direitos destinados às pessoas com deficiência estão reserva de vagas em concursos públicos e em empresas com mais de 100 empregados, o Benefício de Prestação Continuada (BPC) para pessoas de baixa renda que atendam aos requisitos legais e benefícios tributários previstos em lei.
Escolas comuns
A presidente da Federação das Associações de Síndrome de Down, Cleunice Bohn de Lima, defendeu que crianças com deficiência sejam educadas em escolas comuns, e não exclusivamente em escolas especiais. Segundo ela, a convivência com pessoas sem deficiência contribui para a inclusão da criança na sociedade e no mercado de trabalho.
— Quando uma escola diz “esse aluno com deficiência não consegue participar da escola comum”, precisamos perguntar: o que a escola está fazendo para remover as barreiras que impedem essa participação? É na escola comum que as PCDs têm oportunidade de conviver com a diversidade e desenvolver processos psicológicos.
Cleunice pediu a aprovação do PL 401/2019, que estabelece que a pessoa com deficiência seja considerada idosa a partir dos 50 anos, com possibilidade de redução dessa idade mediante avaliação biopsicossocial multidisciplinar. A proposta está pronta para deliberação do Plenário do Senado. Segundo dados analisados pelo Instituto Rodrigo Mendes a partir de informações do Inep, 46,8% das crianças com deficiência estudavam em classes comuns em 2007. Em 2023, o percentual chegou a 92,6%.
Participação social
Celebrado anualmente em 21 de setembro, o Dia Nacional de Luta da Pessoa com Deficiência foi instituído pela Lei 11.133, de 2005. Na sessão, o representante do Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania, Alex Reinecke, afirmou que a mobilização das pessoas com deficiência contribuiu, após a redemocratização, para a participação desse grupo na elaboração de políticas públicas.
— Introduziram, a partir de suas experiências e conhecimentos, novas maneiras de compreender a deficiência e a autonomia. As PCDs não são apenas destinatárias de ações estatais, são cidadãs, lideranças, trabalhadoras e produtoras de conhecimento.
Reinecke citou dados do IBGE para apontar diferenças entre pessoas com e sem deficiência no mercado de trabalho e na educação. Segundo os dados mencionados na sessão, em 2022, 29% das pessoas com deficiência em idade de trabalhar estavam empregadas, ante 55,8% das pessoas sem deficiência. Entre as pessoas de 15 a 29 anos, a taxa de analfabetismo era de 12,2% entre as pessoas com deficiência e de 1% entre as pessoas sem deficiência.
A sessão também contou com a participação da ex-secretária de Direitos das Pessoas com Deficiência Izabel Maior, da professora Érica Curado, da representante do Fórum Nacional das Pessoas com Deficiência Regina Atala, da coordenadora-geral de Prevenção à Violência contra as Mulheres do Ministério das Mulheres, Anita Cunha Monteiro, e da ex-deputada Rosinha da Adefal. Izabel Maior mencionou os senadores Paulo Paim, Mara Gabrilli (PSD-SP) e Flávio Arns (PSB-PR) ao falar sobre a atuação parlamentar relacionada aos direitos das pessoas com deficiência.
Agência Senado (Reprodução autorizada mediante citação da Agência Senado)
Fonte: Agência Senado
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