Brasil
CRE articula missão diplomática para conter tarifa de Trump contra o Brasil
Publicado em
15 de julho de 2025por
Da Redação
Diante da decisão do governo dos Estados Unidos de impor tarifa de 50% sobre produtos brasileiros, a Comissão de Relações Exteriores (CRE) decidiu criar um grupo de trabalho para atuar diplomaticamente junto ao Congresso norte-americano. A proposta foi apresentada pelo presidente da comissão, senador Nelsinho Trad (PSD-MS), nesta terça-feira (15). Ela prevê o envio de uma missão parlamentar a Washington para dialogar com senadores americanos e tentar reverter as medidas antes que elas entrem em vigor, no início de agosto.
Nelsinho anunciou a iniciativa durante audiência pública em que a comissão debateu a crise tarifária com representantes do governo federal e do setor produtivo (REQ 17/2025 – CRE). Segundo o senador, a ideia é construir uma “ponte de diálogo” com os Estados Unidos, num momento em que os canais diplomáticos tradicionais enfrentam dificuldades. Ele informou que a própria embaixada americana no Brasil sugeriu a criação do grupo.
— Vamos formalizar a proposta em requerimento e trabalhar para ampliar o prazo de negociação. Essa situação é ruim para os dois países — afirmou.
Impactos negativos
A decisão do presidente Donald Trump de adotar tarifas de 50% sobre importações brasileiras já é percebida como um golpe direto sobre setores estratégicos, como o agronegócio, a indústria química e a aviação. O diretor de Desenvolvimento Industrial, Tecnologia e Inovação da Confederação Nacional da Indústria (CNI), Jefferson Gomes, alertou que a tarifa compromete negócios de médio e longo prazo e coloca em risco milhares de empregos.
— Os investimentos industriais e o relacionamento entre empresas serão duramente afetados. O superávit americano nas relações com o Brasil chega a US$ 43 bilhões em bens e US$ 165 bilhões em serviços. Essa medida prejudica os dois lados — argumentou.
O secretário de comércio e relações internacionais do Ministério da Agricultura, Luis Rua, informou que os Estados Unidos compraram US$ 12 bilhões em produtos agropecuários brasileiros em 2024. O país foi um dos principais destinos para itens brasileiros como carne bovina, café e suco de laranja.
Além do impacto imediato sobre os exportadores brasileiros, a possível adoção da reciprocidade pelo Brasil em resposta à decisão americana — impondo as suas próprias tarifas — poderá afetar diretamente os importadores nacionais, como alertou o presidente da Associação Brasileira dos Importadores (Abimp), Michel Platini Juliani.
— Caso o Brasil taxe igualmente os produtos americanos, atingiremos a indústria nacional que depende desses insumos. O mercado buscará alternativas, especialmente na China, sob o risco de a produção ser paralisada — alertou.
Reciprocidade
A Lei da Reciprocidade foi mencionada por diversos participantes como um possível instrumento de reação brasileira. Ela permite ao Brasil se proteger de tarifas unilaterais impostas por qualquer país ou bloco econômico. O texto teve origem em projeto do senador Zequinha Marinho (Podemos-PA), com relatório da senadora Tereza Cristina (PP-MS), e foi aprovado e sancionado em abril deste ano.
A senadora, contudo, ponderou que a lei deve ser usada com responsabilidade, como último recurso.
— Ela não foi criada contra os Estados Unidos, mas para dar ao Brasil uma ferramenta de negociação diante de práticas discriminatórias. Ainda há tempo para o diálogo e esperamos uma solução consensual — ressaltou.
A avaliação dos parlamentares é que o Senado precisa assumir papel de liderança no enfrentamento da crise diplomática e econômica. O senador Esperidião Amin (PP-SC) reforçou a importância de “insistência pacífica”, com base em dados sólidos que demonstram a vantagem comercial dos Estados Unidos frente ao Brasil.
— Precisamos iluminar esse cenário com persistência. Os Estados Unidos têm um enorme superávit, esses números não podem ser manipulados. É um resultado consolidado dos últimos 15 anos de operações, isto desperta solidariedade de lá para cá — argumentou.
Já o senador Hamilton Mourão (Republicanos-RS) pontuou que existem duas estratégias possíveis para o Brasil neste momento: uma mais combativa, com o uso da reciprocidade e ações na Organização Mundial do Comércio (OMC), e outra diplomática. Ele também criticou a tentativa de interferência em questões internas do Brasil, fazendo referência às críticas do presidente Donald Trump ao processo judicial contra o ex-presidente Jair Bolsonaro.
— Não aceito que o presidente norte-americano venha meter o bedelho em assuntos que são nossos. Há uma injustiça sendo praticada contra o ex-presidente Jair Bolsonaro, mas cabe a nós brasileiros resolvermos isso — declarou.
Diplomacia
A audiência também foi marcada por críticas à condução da política externa brasileira. O senador Carlos Viana (Podemos-MG) responsabilizou o atual governo por um alinhamento geopolítico “equivocado”, que teria afastado o Brasil dos países mais desenvolvidos. Para ele, isso fragilizou a diplomacia brasileira e dificultou o diálogo com os Estados Unidos.
— O Brasil tem se aliado a um novo bloco de países que é totalmente contrário às nações mais desenvolvidas, como por exemplo o Irã. Essa geopolítica brasileira enfraqueceu a nossa diplomacia, nos empobreceu na negociação internacional e nos gerou uma situação muito mais complicada nesse momento com os Estados Unidos — afirmou.
Por outro lado, o embaixador Philip Fox, secretário de Assuntos Econômicos e Financeiros do Ministério das Relações Exteriores, reforçou que o Brasil segue comprometido com uma solução negociada. Ele ressaltou a importância da relação bilateral ao destacar que os Estados Unidos são o segundo maior parceiro comercial do Brasil e o maior investidor direto no país.
Agência Senado (Reprodução autorizada mediante citação da Agência Senado)
Fonte: Agência Senado
Brasil
Participantes de sessão cobram avaliação biopsicossocial de PCDs
Published
6 dias agoon
21 de setembro de 2026By
Da Redação
Em sessão especial do Senado para celebrar o Dia Nacional de Luta da Pessoa com Deficiência, nesta segunda-feira (21), especialistas cobraram a implementação da avaliação biopsicossocial unificada, prevista no Estatuto da Pessoa com Deficiência, para facilitar o acesso a políticas de inclusão. Também defenderam a matrícula de crianças com deficiência em escolas comuns.
O Censo 2022 do IBGE identificou 14,4 milhões de pessoas com deficiência no Brasil, o equivalente a 7,3% da população com 2 anos ou mais.
A senadora Damares Alves (Republicanos-DF), que presidiu a sessão, afirmou que a Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência da Organização das Nações Unidas (ONU) levou o poder público a adaptar a sociedade às necessidades desse público. Segundo ela, antes predominava a perspectiva médica, “como se a pessoa tivesse um defeito a ser consertado”. A Convenção foi aprovada pelo Congresso Nacional em 2008 e promulgada no ano seguinte.
— É a rua que tem que ter rampa, é o transporte que tem que ser acessível, é a escola regular que tem que acolher com atendimento especializado. É o governo que tem que dar as mãos. Não é caridade, é direito.
Autor do requerimento da sessão (RQS 53/2026), o senador Paulo Paim (PT-RS) afirmou que a inclusão social das pessoas com deficiência depende da valorização da pluralidade.
— Quando derrubamos as barreiras do preconceito e do espaço, edificamos uma sociedade onde cada corpo tem o direito sagrado ao protagonismo e ao pertencimento — disse, em participação remota.
Avaliação biopsicossocial
Damares e Paim afirmaram que a avaliação biopsicossocial prevista no Estatuto da Pessoa com Deficiência ainda não foi regulamentada na forma unificada defendida pelos participantes da sessão. O Estatuto da PCD, fruto de um projeto apresentado por Paim, estabelece que, quando necessária, a avaliação deve ser biopsicossocial, realizada por equipe multiprofissional e interdisciplinar, considerando impedimentos nas funções e estruturas do corpo, fatores socioambientais, psicológicos e pessoais, limitações no desempenho de atividades e restrições de participação.
A representante da Rede Brasileira de Inclusão da Pessoa com Deficiência, Tereza Cristina Rodrigues Villela, afirmou que o documento deverá auxiliar o cadastro-inclusão, destinado a reunir informações sobre pessoas com deficiência que necessitam de assistência governamental. Segundo relatório de 2023 do governo federal citado na sessão, um formulário unificado também poderá facilitar o acesso aos benefícios sociais.
Entre os direitos destinados às pessoas com deficiência estão reserva de vagas em concursos públicos e em empresas com mais de 100 empregados, o Benefício de Prestação Continuada (BPC) para pessoas de baixa renda que atendam aos requisitos legais e benefícios tributários previstos em lei.
Escolas comuns
A presidente da Federação das Associações de Síndrome de Down, Cleunice Bohn de Lima, defendeu que crianças com deficiência sejam educadas em escolas comuns, e não exclusivamente em escolas especiais. Segundo ela, a convivência com pessoas sem deficiência contribui para a inclusão da criança na sociedade e no mercado de trabalho.
— Quando uma escola diz “esse aluno com deficiência não consegue participar da escola comum”, precisamos perguntar: o que a escola está fazendo para remover as barreiras que impedem essa participação? É na escola comum que as PCDs têm oportunidade de conviver com a diversidade e desenvolver processos psicológicos.
Cleunice pediu a aprovação do PL 401/2019, que estabelece que a pessoa com deficiência seja considerada idosa a partir dos 50 anos, com possibilidade de redução dessa idade mediante avaliação biopsicossocial multidisciplinar. A proposta está pronta para deliberação do Plenário do Senado. Segundo dados analisados pelo Instituto Rodrigo Mendes a partir de informações do Inep, 46,8% das crianças com deficiência estudavam em classes comuns em 2007. Em 2023, o percentual chegou a 92,6%.
Participação social
Celebrado anualmente em 21 de setembro, o Dia Nacional de Luta da Pessoa com Deficiência foi instituído pela Lei 11.133, de 2005. Na sessão, o representante do Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania, Alex Reinecke, afirmou que a mobilização das pessoas com deficiência contribuiu, após a redemocratização, para a participação desse grupo na elaboração de políticas públicas.
— Introduziram, a partir de suas experiências e conhecimentos, novas maneiras de compreender a deficiência e a autonomia. As PCDs não são apenas destinatárias de ações estatais, são cidadãs, lideranças, trabalhadoras e produtoras de conhecimento.
Reinecke citou dados do IBGE para apontar diferenças entre pessoas com e sem deficiência no mercado de trabalho e na educação. Segundo os dados mencionados na sessão, em 2022, 29% das pessoas com deficiência em idade de trabalhar estavam empregadas, ante 55,8% das pessoas sem deficiência. Entre as pessoas de 15 a 29 anos, a taxa de analfabetismo era de 12,2% entre as pessoas com deficiência e de 1% entre as pessoas sem deficiência.
A sessão também contou com a participação da ex-secretária de Direitos das Pessoas com Deficiência Izabel Maior, da professora Érica Curado, da representante do Fórum Nacional das Pessoas com Deficiência Regina Atala, da coordenadora-geral de Prevenção à Violência contra as Mulheres do Ministério das Mulheres, Anita Cunha Monteiro, e da ex-deputada Rosinha da Adefal. Izabel Maior mencionou os senadores Paulo Paim, Mara Gabrilli (PSD-SP) e Flávio Arns (PSB-PR) ao falar sobre a atuação parlamentar relacionada aos direitos das pessoas com deficiência.
Agência Senado (Reprodução autorizada mediante citação da Agência Senado)
Fonte: Agência Senado
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