Brasil

Diminuir a desigualdade social no Brasil passa pela inclusão dos pobres no mercado de trabalho, defendem participantes de seminário sobre os 200 anos da Independência

Publicado em

Governos e sociedade civil precisam ver a diversidade e as particularidades de cada local e população como uma chance para inserção no setor produtivo, disse a socióloga Maria Alice Setúbal

Os participantes do debate sobre Desenvolvimento Social — promovido pela Confederação Nacional da Indústria (CNI), como parte do evento que celebra os 200 Anos de Independência — reiteraram que um dos caminhos para que o Brasil diminua a desigualdade social é a inclusão das pessoas pobres no mercado de trabalho. Segundo eles, isso só será possível se o poder público e a sociedade civil enxergarem a diversidade e as particularidades de cada local e população como uma chance de inserção no setor produtivo. 

Maria Alice Setúbal, socióloga e ex-presidente do Conselho de Administração do Centro de Estudos e Pesquisas em Educação, Cultura e Ação Comunitária (CENPEC), pontuou que é preciso haver integração entre a esfera pública, a sociedade e o setor produtivo para entender as necessidades e explorar o potencial de cada comunidade. 

“O Estado tem que olhar para as diferentes regiões do Brasil. As diversidades e as potências são muito grandes. Então, a gente pode ter políticas universais macro, mas daqui de Brasília ou do Palácio Bandeirantes, em São Paulo, não conseguem chegar na população que está ali no território, como a gente viu inúmeras vezes na pandemia. Isso só será feito numa integração entre governos, sociedade civil, organizações de base e empresas”, afirmou. 

Celso Athaíde, ativista social e fundador da Central Única das Favelas (CUFA), reforçou que o direito ao trabalho é uma garantia da Constituição Federal.  Segundo ele, é preciso olhar para as favelas, por exemplo, como locais com desafios específicos que, por sua vez, demandam estratégias particulares.  

Leia Também:  Avança projeto para ampliar geração termelétrica com gás natural da Amazônia

“A pobreza é diferente em cada lugar e, por isso, o direito ao trabalho dessas pessoas que estão nesse estado de pobreza precisa ser percebido com a vocação de cada um desses lugares. As favelas da Rocinha e Heliópolis são maiores do que 80% das cidades. Se você pensar que essas favelas não têm prefeitos, elas podem pensar na pobreza daquele lugar da mesma maneira que você tem políticas para as cidades”, acredita. 

Presente no seminário, o deputado Daniel Almeida (PCdoB-BA) afirmou que apesar do desenvolvimento econômico alcançado desde a independência, as desigualdades sociais permanecem acentuadas no Brasil. Segundo o parlamentar, a solução desse problema passa pela contribuição do governo, do setor produtivo e da sociedade civil. “Quando a CNI incorpora na sua preocupação para os próximos anos o desafio de superar as desigualdades sociais, eu considero algo relevante, necessário. Toda a sociedade brasileira tem contribuição a dar nesse desafio”, pontua. 

Desafios
Questionado sobre a relação entre a educação e desenvolvimento social, Athaíde destacou que é preciso modernizar o modelo de ensino, de forma que ele faça mais sentido no contexto de cada estudante. “Acho que é preciso repensar o modelo de educação, esses estudos pela internet, que tipo de aula digital você tem, como você incorpora os games no estudo, porque temos, por exemplo, um milhão de jovens numa competição de games. Como a gente não usa essa linguagem para que eles possam aprender a estudar?”, questionou. 

Durante sua palestra, a historiadora Lilia Schwarcz explicou como a Independência do Brasil em 1822 foi ressignificada ao longo dos últimos 200 anos. Ela aproveitou para fazer uma reflexão sobre a participação política. 

Leia Também:  Jornada das Águas: na Paraíba, Governo Federal inaugura último trecho de canal do Projeto de Integração do Rio São Francisco

“As pesquisas mostram como uma série de jovens que poderiam votar têm aberto mão da política e têm crescentemente chamado atenção de que a política não é para eles, esquecendo que a política não é apenas essa dos políticos, mas a arte de viver em conjunto, de defender os seus direitos, de cumprir os seus deveres. É hora de contar cada vez mais com a nossa cidadania”, disse. 

Ricardo Paes de Barros, doutor em economia pela Universidade de Chicago e professor do Insper, destacou que só é possível gerar emprego e renda a partir do crescimento econômico. No entanto, entraves como o sistema tributário impedem o setor produtivo de deslanchar. 

“A inclusão produtiva, obviamente que vem de uma retomada de um crescimento sustentável. Quanto maior o crescimento, maior vai ser a quantidade de empregos que vamos gerar. Isso precisa vir do Brasil ter um ambiente de negócios muito melhor, porque hoje o Brasil está na posição 120 do índice Doing Business do Banco Mundial. Com uma legislação trabalhista extremamente complexa, uma legislação tributária impossível, é bem difícil você abrir novos negócios”, disse. 

200 Anos de Independência
A série de seminários do evento 200 Anos de Independência — A indústria e o futuro do Brasil terá, ainda, mais dois seminários. Na próxima quarta-feira (11), o tema é “Desenvolvimento Industrial, Científico e Tecnológico”. No dia 1º de junho, será a vez de debater “Educação e Cidadania”. 

( Com Informações: Brasil 61 )

COMENTE ABAIXO:
Advertisement
Click to comment

You must be logged in to post a comment Login

Leave a Reply

Brasil

Participantes de sessão cobram avaliação biopsicossocial de PCDs

Published

on

Em sessão especial do Senado para celebrar o Dia Nacional de Luta da Pessoa com Deficiência, nesta segunda-feira (21), especialistas cobraram a implementação da avaliação biopsicossocial unificada, prevista no Estatuto da Pessoa com Deficiência, para facilitar o acesso a políticas de inclusão. Também defenderam a matrícula de crianças com deficiência em escolas comuns.

O Censo 2022 do IBGE identificou 14,4 milhões de pessoas com deficiência no Brasil, o equivalente a 7,3% da população com 2 anos ou mais.

A senadora Damares Alves (Republicanos-DF), que presidiu a sessão, afirmou que a Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência da Organização das Nações Unidas (ONU) levou o poder público a adaptar a sociedade às necessidades desse público. Segundo ela, antes predominava a perspectiva médica, “como se a pessoa tivesse um defeito a ser consertado”. A Convenção foi aprovada pelo Congresso Nacional em 2008 e promulgada no ano seguinte.

— É a rua que tem que ter rampa, é o transporte que tem que ser acessível, é a escola regular que tem que acolher com atendimento especializado. É o governo que tem que dar as mãos. Não é caridade, é direito.

Autor do requerimento da sessão (RQS 53/2026), o senador Paulo Paim (PT-RS) afirmou que a inclusão social das pessoas com deficiência depende da valorização da pluralidade.  

— Quando derrubamos as barreiras do preconceito e do espaço, edificamos uma sociedade onde cada corpo tem o direito sagrado ao protagonismo e ao pertencimento — disse, em participação remota.

Avaliação biopsicossocial

Damares e Paim afirmaram que a avaliação biopsicossocial prevista no Estatuto da Pessoa com Deficiência ainda não foi regulamentada na forma unificada defendida pelos participantes da sessão. O Estatuto da PCD, fruto de um projeto apresentado por Paim, estabelece que, quando necessária, a avaliação deve ser biopsicossocial, realizada por equipe multiprofissional e interdisciplinar, considerando impedimentos nas funções e estruturas do corpo, fatores socioambientais, psicológicos e pessoais, limitações no desempenho de atividades e restrições de participação.

Leia Também:  Comissão da Diversidade Sexual e Gênero incorpora demandas de seccionais em seu plano de trabalho

A representante da Rede Brasileira de Inclusão da Pessoa com Deficiência, Tereza Cristina Rodrigues Villela, afirmou que o documento deverá auxiliar o cadastro-inclusão, destinado a reunir informações sobre pessoas com deficiência que necessitam de assistência governamental. Segundo relatório de 2023 do governo federal citado na sessão, um formulário unificado também poderá facilitar o acesso aos benefícios sociais.

Entre os direitos destinados às pessoas com deficiência estão reserva de vagas em concursos públicos e em empresas com mais de 100 empregados, o Benefício de Prestação Continuada (BPC) para pessoas de baixa renda que atendam aos requisitos legais e benefícios tributários previstos em lei.

Escolas comuns

A presidente da Federação das Associações de Síndrome de Down, Cleunice Bohn de Lima, defendeu que crianças com deficiência sejam educadas em escolas comuns, e não exclusivamente em escolas especiais. Segundo ela, a convivência com pessoas sem deficiência contribui para a inclusão da criança na sociedade e no mercado de trabalho.

— Quando uma escola diz “esse aluno com deficiência não consegue participar da escola comum”, precisamos perguntar: o que a escola está fazendo para remover as barreiras que impedem essa participação? É na escola comum que as PCDs têm oportunidade de conviver com a diversidade e desenvolver processos psicológicos.

Cleunice pediu a aprovação do PL 401/2019, que estabelece que a pessoa com deficiência seja considerada idosa a partir dos 50 anos, com possibilidade de redução dessa idade mediante avaliação biopsicossocial multidisciplinar. A proposta está pronta para deliberação do Plenário do Senado. Segundo dados analisados pelo Instituto Rodrigo Mendes a partir de informações do Inep, 46,8% das crianças com deficiência estudavam em classes comuns em 2007. Em 2023, o percentual chegou a 92,6%.

Leia Também:  Comissão especial debate impactos da regulamentação sobre plataformas digitais de serviços

Participação social

Celebrado anualmente em 21 de setembro, o Dia Nacional de Luta da Pessoa com Deficiência foi instituído pela Lei 11.133, de 2005. Na sessão, o representante do Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania, Alex Reinecke, afirmou que a mobilização das pessoas com deficiência contribuiu, após a redemocratização, para a participação desse grupo na elaboração de políticas públicas.

— Introduziram, a partir de suas experiências e conhecimentos, novas maneiras de compreender a deficiência e a autonomia. As PCDs não são apenas destinatárias de ações estatais, são cidadãs, lideranças, trabalhadoras e produtoras de conhecimento.

Reinecke citou dados do IBGE para apontar diferenças entre pessoas com e sem deficiência no mercado de trabalho e na educação. Segundo os dados mencionados na sessão, em 2022, 29% das pessoas com deficiência em idade de trabalhar estavam empregadas, ante 55,8% das pessoas sem deficiência. Entre as pessoas de 15 a 29 anos, a taxa de analfabetismo era de 12,2% entre as pessoas com deficiência e de 1% entre as pessoas sem deficiência.

A sessão também contou com a participação da ex-secretária de Direitos das Pessoas com Deficiência Izabel Maior, da professora Érica Curado, da representante do Fórum Nacional das Pessoas com Deficiência Regina Atala, da coordenadora-geral de Prevenção à Violência contra as Mulheres do Ministério das Mulheres, Anita Cunha Monteiro, e da ex-deputada Rosinha da Adefal. Izabel Maior mencionou os senadores Paulo Paim, Mara Gabrilli (PSD-SP) e Flávio Arns (PSB-PR) ao falar sobre a atuação parlamentar relacionada aos direitos das pessoas com deficiência.

Agência Senado (Reprodução autorizada mediante citação da Agência Senado)

Fonte: Agência Senado

COMENTE ABAIXO:

Continuar lendo

BOA VISTA

RORAIMA

POLICIAL

ENTRETENIMENTO

ESPORTES

MAIS LIDAS DA SEMANA